Segunda-feira, 4 de Fevereiro de 2008

anArquitectura ?

Em 1973, o grupo Anarchitecture - uma dúzia de jovens artistas bem conhecidos provenientes de diversas áreas - , começou a reunir-se para produzir uma série de propostas colectivas. Apesar de alusivo à palavra anarquia, Matta-Clark considerou que o termo não implicava anti-arquitectura, mas sim uma "tentativa de divulgar ideias sobre espaço que são perspectivas e reacções pessoais e não declarações sociopolíticas formais".1
Nas suas reuniões informais, o grupo improvisava, trocava de contextos e adoptava as implicações físicas e as inovações espaciais dos bailarinos, ou as performances híbridas de artistas como Laurie Anderson.

 

  Propunham-se, assim, alternativas a espaços com potencialidades arquitectónicas, numa espécie de jogo em que os espaços urbanos instáveis, "vazios metafóricos, intervalos, espaços que sobravam"1 - residuais -  eram interpretados como especulações sobre arquitectura. Em 1973, Matta-Clark enviou de Paris propostas irrealizáveis – os destroços de um comboio que pareciam uma ponte, casas-carrinhos de supermercado, parques flutuantes em cima de lanchas; chegou a cometer o sarcasmo de esboçar ideias negativas através de palavras, "obras destinadas ao colapso, ao fracasso, à ausência e à memória."1

 

  Desta modo, o termo ‘anarquitectura’ – neologismo criado nos anos 70, utilizado por Matta-Clark – aproxima-se da expressão ‘des-arquitecturação’ de Smithson, e se Carl André fala de um "corte no espaço" (que habitualmente é um corte metafórico, levado a cabo num museu), Matta-Clark corta mesmo casas, em sentido literal de cima a baixo na periferia incaracterística dos grandes centros urbanos. Em 1971, este artista definiu vagamente o seu projecto: "conclusão através de remoção. Abstracção das superfícies. Não-construção, não-construído por demolição, espaço-não-construído. Criar complexidade espacial, mostrando novas aberturas contra velhas superfícies. Luz introduzida no espaço ou para além das superfícies cortadas. Partir e entrar. Aproximar-se do colapso estrutural, separar as partes no ponto de colapso (…)".1 Os cortes de Matta-Clark são actos de destruição no que diz respeito à arquitectura real, mas sem a sua intervenção, as construções em questão estariam condenadas à ruína e à destruição. "Os seus cortes nunca são destruição pura", segundo Becher, na medida em que "produzem salvação, abrindo espaços fechados, permitindo a entrada de luz em estruturas que antes lhe estavam vedadas, destruindo a separação nociva entre espaço público e privado (…) não são apenas planeados, como ainda geometricamente organizados, segundo um estética minimalista."1

  A prática subtractiva de Matta-Clark insurge-se contra todo o impulso construtivo de uma Arquitectura que não pretende senão ser objecto de Especulação Imobiliária e contra a produção de objectos (escultóricos). Apesar da base teórica dos seus trabalhos, a preservação e a exposição de partes de edifícios, cortadas em circunstâncias diversas, resultaram na sua transformação em mercadoria congruente com o Mercado. 

  E em última análise, este género de intervenção não passa disso mesmo - uma manifestação, uma demarcação de uma posição ideológica, na medida em que uma obra de Arquitectura consiste numa expressão artística interdisciplinar que actua sobre as vivências. Esta surge como resposta a um necessidade antropológica que veicula o seu conteúdo através de uma matéria e de uma forma, representando, por isso, a materialização perene mediante materiais, dimensões e formas, do modo como o Homem se relaciona com o Espaço e com este responde às suas necessidades.

 

 

1 Colecção de Arte Contemporânea Público Serralves nº4, pp. 91 e 95.


Publicado por Alguém às 14:53
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|
Domingo, 3 de Fevereiro de 2008

Interlúdios

 

 Às vezes julgo que, de todos os tempos que temos, os entretantos são os mais menosprezados. 1

Porque se pensa que os momentos entre Actos, ou Acções Maiores, não têm qualquer interesse; são meros interlúdios, momentos de ócio casualmente temporários ou são meras deslocações entre dois Sítios, que são aqueles que nos importam, na altura.

Mas as possibilidades que um interlúdio oferece são desconhecidas - entre dois lugares existe o mesmo: uma sucessão de  outros lugares, que podem albergar vida, acontecimentos. A nossa passagem por eles tem a hipótese de afectá-los e ficar marcada. Portanto não sabemos o que podemos esperar ao virar da esquina. Não sabemos o que veremos hoje, num Lugar pelo qual passamos invariavelmente todos os dias e que costuma estar amorfo.

Os pequenos momentos não devem ser subestimados.

A Realidade não deve ser considerada previsível nem plana.

Imagem: fotografia de Elliot Erwitt

1 CARDOSO, Miguel Esteves - O Amor é Fodido. Odivelas : Assírio & Alvim, 2006, p. 60


Publicado por Alguém às 02:49
link do post | comentar | ver comentários (3) | favorito
|
Sábado, 2 de Fevereiro de 2008

Género Noir

Síntese

 Uma produção Noir caracteriza-se pela inclusão de factores que o distinguem dos demais estilos, demarcando-o. A existência de um crime, a apresentação da perspectiva dos criminosos – não da polícia, o uso de uma visão invertida das tradicionais Autoridades – tal como a corrupção policial, o retrato de alianças e lealdades instáveis, a presença de uma
femme fatale que causa a ruína ou a morte de um bom homem, a demonstração da violência bruta pura e dura, ou a manifestação de complots bizarros constituem os alguns dos principais elementos que permitem identificar uma produção Noir.

 
 Definição

O Filme Noir é um estilo, uma maneira de se filmar, influenciada pelo Expressionismo Alemão, pelo Realismo poético francês e pelo romance policial, tendo surgido na década de 40/ início da de 50. Nos primeiros filmes do género eram retratados o submundo escuro e sombrio do crime e da corrupção. Nestes, os heróis, bem como os vilões, eram cínicos, desiludidos e, frequentemente, solitários e inseguros, surgindo retratados enquanto indivíduos fortemente ligados ao passado e indiferentes quanto ao futuro. Em termos de estilo e técnica, o filme Noir caracteriza-se pelas cenas nocturnas (internas e externas), com cenários que sugerem realismo e com uma iluminação que enfatiza as sombras e acentua o clima de fatalidade.
Na medida em que os tablóides americanos da década de 30 foram importantes para o surgimento deste género – a brutalidade das imagens mostradas era constante –, os filmes recorriam à fotografia a preto e branco, fortemente contrastada, aos ângulos pouco convencionais, às fontes isoladas de luz, e ao efeito de profundidade de campo.
Apesar de serem, maioritariamente, produções de baixo orçamento, os artifícios técnicos usados (e não só), conferiam-lhes o estatuto de Série B, e uma aproximação à Realidade, unida a características oníricas.
 
Evolução histórica
 
 
Em 1941, os Estados Unidos entraram na Guerra. e nesse mesmo ano estreou o Falcão Maltês, de John Huston, que é considerado o primeiro filme Noir da história. Segundo Paul Scharader, em 1972, este movimento corresponde a um período específico da história do cinema, colocando-o em pé de igualdade com o Expressionismo Alemão e a Nouvelle Vague Francesa; distingue-o, portanto, dos westerns e dos filmes de gangsters. Com uma estética inovadora, que impregnou a produção de filmes de série B hollywoodianos, principalmente filmes policiais e, mais tarde, até mesmo alguns melodramas de série A, este filme ganhou notoriedade.
Descendente directo do filme de gangsters dos anos 30, que por sua vez é filho da crise económica coeva e aparecimento do crime organizado, estruturado na instituição da Lei Seca e que imediatamente após a sua revogação se intensificou e diversificou as suas actividades, o filme Noir retratou o crime enquanto meio rápido de ascensão social, numa época em que a moral perdia a sua rigidez e se desintegrava, numa sociedade onde as antigas leis políticas e económicas não garantiam mais um futuro promissor.
O crime surgiu, nem tanto como o resultado de uma revolta contra as condições de um sistema que marginalizava e oprimia, mas como tentativa de preencher vidas enfadonhas e obscuras, e a violência,
enquanto escape – “termómetro social” – passou a ser a forma de reivindicar direitos ou mostrar a inadaptação ao mundo.
Em termos evolutivos, podem distinguir-se três fases do género cinematográfico Noir.
A primeira, compreendida entre 1941 e 1946, a qual corresponde à fase do detective particular, da mulher fatal, dos diálogos cortantes e inteligentes, ocorreu durante a Guerra, tendo como inspiração constante a literatura policial de Raymond Chandler, Dashiel Hammett e James M. Cain, e pode ser representada por filmes como O Falcão Maltês (The Maltese Falcon, 1941), O Destino bate à porta (The postman always rings twice, 1946, de Tay Garnett), Pacto de Sangue (Double Indemnity, 1944, de Billy Wilder).

A fase seguinte – do período pós-guerra (1945/1949), enfatizou o crime das ruas, a corrupção e a rotina policiais. Os heróis eram menos românticos que os do período anterior, na medida em que o realismo desta fase revela o sentimento de desilusão do pós-guerra, exprimindo também a difícil readaptação dos veteranos à sociedade que se transformava. Deste estádio destacam-se filmes como Brutalidade (Brute force, 1947, de Jules Dasin), Assassinos (The killers, 1946, de Robert Siodmak) e Esperança Amarga (They live by night, 1949, de Nicholas Ray).
Na terceira e última fase, de 1949 a 1953, predomina a paranóia, o impulso suicida e a acção psicológica. O desespero e a desintegração do herói chegam ao clímax, sendo este substituído pelo assassino psicopata, que deixa de ser um mero figurante, passando a protagonista. Deste período, filmes como Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, 1950, de Billy Wilder), Os Corruptos (The Big Heat, 1953, de Fritz Lang) e Mortalmente Perigosa (Gun Crazy, 1950, de Joseph H. Lewis).
A 22 de Setembro de 1947, o Plano Marshall entrou em vigor na Europa, e os acontecimentos com ele relacionados fizeram com que a crueldade fosse cada vez mais comum nas produções americanas, sendo o reflexo directo de uma sociedade que passou a ter de conviver com a ameaça de uma guerra nuclear. Desta feita, diante da aparente gratuidade da vida, aprisionado nos seus próprios medos e sem a possibilidade de redenção ou transcendência, o herói Noir fez do Niilismo a sua bandeira.
Abandonado, sem valores nem certezas, nada mais lhe restou que cultivar a própria solidão e vazio interiores. Assim, frente ao aparente absurdo existencial, tudo era encarado cinicamente como uma grande piada, uma espécie de peça teatral limitada pelo Destino.
Se, no início predomina a figura do detective duro e solitário que encontra um sentido para a existência no individualismo e no exercício de sua profissão, e sobrevive como um pária do mundo exterior, mantendo uma ilusória sanidade mental à custa da indiferença, no final do ciclo Noir da década de 50 a personagem-tipo tornou-se cada vez mais alienada, inexistente e consciente da vacuidade dos sonhos de Poder e Riqueza, transformando-se num Anti-herói. Desta feita, o Sonho e a Náusea, o Existencialismo e a Psicanálise, eram referências constantes, uma vez que esta se prestava à análise de personagens moral e psicologicamente perturbadas, cada vez mais solitárias e conscientes do Vazio.
Através dos carros, das roupas, dos cigarros, dos trejeitos – ou seja, através das imagens fetichistas da Sociedade de Consumo – o Filme Noir retratou o progressivo adoecimento da América. Nem o moralismo, o puritanismo, o conservadorismo, o Código de Censura, ou os orçamentos reduzidos impediram as diversas visões amargas e cruéis do Sonho Americano: pelo contrário, possibilitaram o tratamento por parte da indústria, de temas tabus e polémicos, com ousadia e criatividade.
A nível mais recente e a título de exemplo, destacam-se filmes como Scarface, Os Incorruptíveis contra a Droga, Taxi Driver e Reservoir Dogs.
Scarface - A Força do Poder  : Brian de Palma
Na versão recente recupera-se o clássico homónimo da década de 30, desta feita com uma abordagem relativamente diferente, mas focada na ascensão de uma
personagem criminosa no submundo da cocaína, que representa um anti-herói.
The French Connection I  (Os Incorruptíveis contra a Droga I ) : 1971; William Friedkin
The French Connection II  (Os Incorruptíveis contra a Droga II) : John Frankenheimer
Incidindo também na temática do Crime e da Droga, envolve dignas  sequências de perseguição automóvel e cenas de violência crua inusitadas e difíceis de encontrar actualmente.
Reservoir Dogs (Cães Danados) : 1991; Quentin Tarantino
Também acerca da temática criminosa, envolve um grupo de indivíduos contratados para um golpe que envolve um desfecho inesperado.
Tal como as outras produções mencionadas, apresenta sequências de violência explícita e que mostram a realidade pura e dura, tal como ela é.
tags:

Publicado por Alguém às 04:47
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|

_Alguém...


_ Perfil

_ seguir perfil

. 4 seguidores

_pesquisar

 

_Setembro 2010

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
23
24
25

26
27
28
29


_Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

_Artigos recentes

_ NOVO BLOG : EXTRA MODUM

_ THEM THANGS II

_ THEM THANGS I

_ Limites

_ Auroras

_ Fragmentos : Sliced Cat

_ Caprichos

_ Urgem mais espaços de crí...

_ KOYAANISQATSI

_ Bloco A4 IV

_ Neglected toddler barked ...

_ A. Camus : A Queda

_ Bloco A4 III

_ Bloco A4 II

_ Bloco A4 I

_ Portugal 2010 A.D. III

_ Portugal 2010 A.D. II

_ Portugal 2010 A.D. I

_ When you're strange : a f...

_ Beja III

_ Beja II

_ Beja I

_ Memórias futuras

_ Batalha III

_ Batalha II

_ Batalha I

_ Definição : Arquitectura

_ Margem Esquerda VII

_ Margem Esquerda VI

_ Margem Esquerda V

_Arquivos

_ Setembro 2010

_ Maio 2010

_ Abril 2010

_ Março 2010

_ Fevereiro 2010

_ Janeiro 2010

_ Setembro 2009

_ Agosto 2009

_ Julho 2009

_ Junho 2009

_ Maio 2009

_ Abril 2009

_ Fevereiro 2008

_ Outubro 2007

_ Setembro 2007

_ Julho 2007

_ Abril 2007

_ Fevereiro 2007

_ Janeiro 2007

_ Dezembro 2006

_ Novembro 2006

_ Outubro 2006

_tags

_ todas as tags

_Links

_Blog Patrol > 25 04

_Twitter

Follow F_Lavareda on Twitter

_Last FM

mstfst's Profile Page

_Visitas

SAPO Blogs

_subscrever feeds